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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Imersa em Psicanálise

Sim, assim estou me sentindo neste segundo semestre de Psicologia.
Na disciplina de TSP II (Teorias e Sistemas Psicológicos) esta é a ênfase dos nossos estudos, especificamente uma introdução às obras de Sigmund Freud, por serem essenciais ao entendimento do que é a Psicanálise, como ela se desenvolveu e para que serve.

Começamos com um panorama sobre a vida de Freud e uma visão cronológica de sua extensa obra. Freud escreveu muito (muito trabalho à vista...). Suas primeiras publicações datam de 1895, e até poucas semanas de sua morte ele dedicava várias horas do seu dia à produção de artigos e resenhas. Seu último escrito, "Moisés e o Monoteísmo", foi concluído em 1939.

A importância de suas descobertas e a sua concepção do Inconsciente como sendo a instância primordial da formação da psique humana é indiscutível, mesmo para aqueles que não acreditam na eficácia da psicanálise enquanto "terapia". Com Freud, inagura-se o conceito de Incosciente no estudo da Psicologia, através do discentramento da racionalidade consciente (Cartesianismo), e cria-se a subjetividade inconsciente.  É certo que a psicanálise sofreu e ainda sofre muitas críticas, normalmente à alegada "pansexualização" de seus postulados. Mas ao lermos e estudarmos os textos de Freud, percebemos que, ao contrário do que prega o senso comum a cerca da psicanálise, ela não trata somente de sexo e não resume tudo a problemas da vida sexual do indivíduo. Somente aqueles que não conhecem a Psicanálise ou tem um entendimento limitado dos seus conceitos fazem essa crítica.

Os conceitos psicanalíticos de Ego e Superego (que se traduzem melhor por EU e SUPEREU), do Complexo de Édipo, de recalque, transferência e catarse, já pertencem de certo modo à cultura pop, pois mesmo quem nunca estudou psicologia, psicanálise ou qualquer outra "psicocoisa" já ouviu falar disso, já criou algum conceito e sabe (ou acha que sabe) do que se trata quando tais termos são citados. As idéias de Freud acerca do Complexo de Édipo e sua afirmação da existência de uma sexualidade infantil da qual todos somos, de alguma forma, produtos, foram e continuam sendo as mais combatidas e criticadas. "Para Freud tudo se resume a sexo", ouvimos. Antes de estudar a Psicanálise e ler um pouquinho o que o pai deste saber tem a dizer sobre o assunto, eu também fiz tal julgamento!

O entendimento freudiano de sexualidade vai além do que normalmente entendemos como "sexual", mero encontro de genitais em busca de prazer e todas as ações, movimentos, emoções, experiências que envolvem essa busca. O conceito de libido como sendo algo que nos move em busca de satisfação pode ser análogo de motivação, para dar um exemplo.E precisamos "investir libido" no mundo para fazer quase tudo, estudar, trabalhar, buscar nossos ideais e a realização dos nossos desejos, incluindo os sexuais!
  
"A psicanálise nos ensinou que são as vicissitudes da libido do indivíduo que decidem em favor da saúde ou da moléstia humana."


Através do estudo dos estados mórbidos e patológicos (como a histeria e as neuroses), Freud demonstrou que todos temos um aparelho psíquico potente, que existe em todo ser humano uma vasta área inconsciente, que talvez seja a fonte de toda a nossa vida psíquica, e que o conflito entre os nossos pensamentos e desejos inconscientes e o que é experimentado pela nossa consciência é, afinal de contas, constituinte da nossa própria condição humana.

O conceito de Inconsciente nos foi apresentado através da leitura do texto "Cinco Liçoes de Psicanálise", de 1910, uma série de conferências do Dr. Freud na Universidade de Worcester, em Massachussets, onde a psicanálise foi apresentada pela primeira vez nos Estados Unidos.  Neste texto,  ele nos diz que

"...num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um 'nada saiba' do outro, e que podem se alternar entre si em sua emersão à consciência.(...) Quando nessa divisão da personalidade a consciência fica constantemente ligada a um desses dois estados, chama-se esse o estado mental conscience e o que dela permanece separado o inconsciente."
 Esta divisão entre conteudo consciente e inconsciente da mente humana é muito importante, e quando fazemos análise (ou terapia) procuramos o auto-conhecimento através de um melhor entendimento ou o resgate mesmo dos conteúdos inconscientes da nossa mente, que podem nos gerar um sintoma (patológico) ou simplesmente sofrimento psíquico. Como o conflito e uma certa neurose fazem parte da condição humana, o acesso aos conteúdos no nosso inconsciente só pode ser benéfico, mas como alcançá-los??

Em uma de suas obras mais importantes, "A Interpretação dos Sonhos", de 1900,  Freud nos mostra que através do estudo dos sonhos podemos ter acesso aos conteúdos do nosso inconsciente que estão normalmente inacessíveis ao nosso entendimento, e através da análise de sua simbologia, encontrar significação para diversos processos mentais importantes para o nosso auto conhecimento.  Para  Freud, "a interpretação dos sonhos é na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente e a base mais segura da psicanálise." Os sonhos são realizações de desejos inconscientes, e, ao serem tão semelhantes à loucura, nos fazem perceber claramente que a diferença entre um estado dito "normal"  e um estado patológico ou de sofrimento psíquico é muito tênue.
"Uma pessoa sadia é virtualmente um neurótico, só que os únicos sintomas que ela consegue produzir são os seus sonhos."
A Psicanálise nos apresenta outras formas de acesso à nossa mente inconsciente, e diversos conceitos importantes a cerca da estruturação da psique humana, mas não é o objetivo deste post esgotar o assunto ou tentar resumir tudo o que temos lido e estudado até agora.

Na verdade o que tentamos fazer é apenas uma introdução a esse estudo fascinante, que tem me dado muito prazer e me ensinado muitas coisas, apesar da nossa professora dizer que "as fichas só caem depois", que é necessário algum tempo de "digestão" da psicanálise. Então, continuaremos lendo, refletindo, digerindo, buscando um entendimento desse saber que, na minha opinião, é essencial na nossa formação em Psicologia.

Desde o início do semestre já lemos os textos "A concepção piscanalítica da perturbação psicogênica da visão", de 1910, "A Psicanálise selvagem" também de 1910, "Uma nota sobre o incosciente na psicanálise" de 1912, "Algumas lições elementares de Psicanálise", de 1940,  eu "Uma dificuldade no caminho da psicanálise", belo texto de 1917, onde Freud nos fala do narcisismo e das grandes feridas que a ciência moderna causou no narcisismo do homem, onde nos diz:
  "Volte seus olhos para dentro, contemple suas próprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se! Então compreenderá por que está destinado a ficar doente, e talvez evite adoecer no futuro."
Muito temos ainda para ler e aprender com o Dr. Freud, o caminho é longo, mas tenho certeza que será de muitas descobertas (e polêmicas nas nossas aulas!!). Nos próximos posts, mais psicanálise (falaremos das feridas narcísicas citadas acima) e uma introdução aos mitos que deram origem a alguns conceitos psicanalíticos que estamos conhecendo neste semestre.

Links relacionados a este post:

Blog do Favre - Sobre a reedição das obras completas de Freud, com tradução atualizada.
Freud Museum (Londres)
Lista de links da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre


Referências Bibliográficas:

FREUD, S. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
___________. (1900) A Interpretação dos sonhos, v.V
___________. (1910) A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão, v.XI
___________. (1910) A Psicanálise selvagem, v.XI
___________. (1912) Uma nota sobre o incosciente na psicanálise, v.XII
___________. (1917) Uma dificuldade no caminho da psicanálise, v.XVII

FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise; seleção de textos de Jayme Salomão; tradução de Durval Marcondes (et al.), São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Afinal, para que a Psicologia?

Ѱ Scientia eorum quae per animas humanas possibilia” (A Psicologia é a ciência das coisas que são possíveis através da alma humana) – Wolff, 1728:58
 
Bem, ao longo desse primeiro semestre do curso, tentamos formular uma resposta coerente para esta questão fundamental, que nos perseguiu durante os estudos de várias disciplinas. Lemos vários textos de Garcia Roza, Foucault, Canguilhem, Norbert Elias, Descartes, Nietzsche, Kant, Arthur de Arruda Ferreira, Guattari, e Deleuze, entre outros, para as disciplinas de História da Psicologia, Fundamentos Epistemológicos e Filosóficos da Psicologia, Teoria e Sistemas Psicológicos, Psicologia e História Social, Psicologia e suas Conexões, que muitas vezes nos confundiram mais do que ajudaram a achar uma resposta para o problema. Ou pelo menos, em um primeiro momento. Acho que agora, terminado o semestre, leituras feitas, refeitas, provas concluídas e depois de alguma reflexão, estamos em condições de responder a esta pergunta com alguma clareza.


Na verdade, para mim essa pergunta sempre representou duas linhas importantes de reflexão, uma acadêmica, requerida pelo curso, e outra, estritamente pessoal: afinal, para que a psicologia na minha vida agora, porque a opção de reingressar na Universidade para cursar psicologia, depois de já ter uma profissão definida, três filhos, uma rotina corrida e cheia de responsabilidades?


A vontade de voltar aos bancos escolares já me perseguia há algum tempo, por estar já um tanto entediada com a vida de professora-tradutora-intérprete, a vontade de fazer algo mais, algo diferente, começou a se transformar em um desejo forte de investir na minha formação acadêmica, ler outras coisas, conviver com outras pessoas, pensar outras questões... Acho muito importante pensar a educação como um processo contínuo de desenvolvimento pessoal, procuro  aprender coisas novas sempre que posso, e essa “recarga” só faz bem à alma, às minhas relações pessoais, e ao convívio com a família. Essa necessidade de me “reinventar” every once in while sempre fez parte de mim, acho que me define.

E por que a Psicologia? Bem, sempre tive muito interesse pelas questões que envolvem a alma humana, de um ponto de vista mais “espiritual”, mas também pelas questões de como pensamos o que pensamos, como sentimos, como aprendemos, como o nosso inconsciente nos molda, e de certa forma define como agimos, como somos. Sem falar nas eternas questões filosóficas “quem somos?”, “para onde vamos?”, “to be or not to be”, blá, blá, blá... Enfim, buscando um melhor entendimento do mundo e do que nos faz humanos, a Psicologia me pareceu o melhor campo para buscar tentativas de respostas a tais questões.


Ter me tornado mãe também foi uma razão do meu interesse pela área, pois desde que meu primeiro filho nasceu passei a ser uma consumidora voraz dos tais livros de autoajuda (arghh, hj em dia corro deles!), de psicologia do desenvolvimento infantil, inteligência emocional, estimulação, Shantala, enfim, tudo que pudesse me ajudar a entender melhor o que estava se passando com aqueles pequenos seres que eu agora tinha a responsabilidade de criar, cuidar, formar, depois de tê-los desejado tanto e os posto no mundo. Mães sempre querem acertar e ser perfeitas, e por isso mesmo erram muito e estão longe da perfeição... Mas seguimos tentando, e tentar entender o mundinho dos nossos filhos e fazer o que estiver ao nosso alcance para que eles vivam bem e se tornem pessoas, responsáveis por suas escolhas e conscientes, sempre me pareceu a principal tarefa dos pais. Sempre ouvi aquele famoso lugar-comum, “criamos os filhos não para a gente, mas para o mundo”, e para mim a questão sempre foi, “que tipo de pessoas eu quero no mundo?” e minhas ideias sobre educação sempre foram pautadas nessa premissa.




Foi também importante na escolha da Psicologia a esta altura dos acontecimentos a minha preocupação em tentar, através das minhas habilidades, ser um agente de transformação do mundo em geral, e especificamente, da sociedade em que vivemos. Achei que a minha experiência no magistério, primeiro como aluna de um curso de formação para professores, depois como professora, poderia ser útil para auxiliar na capacitação das pessoas que trabalham com educação. Acredito que investir na educação, tanto de nossas crianças como de nossos professores, é o que esse país precisa para realmente dar um salto de desenvolvimento. E, como os psicólogos podem ser agentes de transformação através das suas práticas, se essas estiverem comprometidas não com a normalização dos indivíduos, mas com a produção de uma subjetividade não alienada ou alienante, de processos de singularização subjetiva, conforme nos propõe Guattari


“A partir do momento em que os grupos adquirem essa liberdade de viver seus processos, eles passam a ter uma capacidade de ler sua própria situação e aquilo que se passa em torno deles. Essa capacidade é que vai lhes dar um mínimo de possibilidade de criação e permitir preservar exatamente (...) sua autonomia tão importante.”

Nestas palavras, na possibilidade de inserção do trabalho do psicólogo nesta linha de pensamento, encontrei a resposta, totalmente de cunho pessoal, à questão da finalidade da Psicologia na minha vida. Se eu conseguir, através do meu saber e da minha experiência, auxiliar outras pessoas, nas suas buscas pessoais, a encontrarem respostas que as levem a se tornarem indivíduos mais completos, com todas as suas singularidades, com certeza estarei muito realizada profissionalmente.

Referências Bibliográficas deste post:

GUATTARI, Félix e ROLNIK, Sueli. Micropolítica – CARTOGRAFIAS DO DESEJO. Petrópolis: Editora Vozes, 2000.
FERREIRA, Arthur Arruda Leal, JACÓ-VILELA, Ana Maria e PORTUGAL, Francisco Teixeira. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA, Rumos e Percursos. Rio de Janeiro: Nau Ed., 2007.

Trilha sonora deste post: A música que me fez começar a me questionar acerca do que eu queria fazer com minha vida, lá longe nos meus 15 anos... 
“If I could, you know I would let it go/ this desperation, dislocation, separation, condemnation, isolation, desolation… to let it go… and so fade away… I’m wide awake, I’m not sleeping”
U2, “Bad”, Wide Awake in America, 1985.

domingo, 5 de junho de 2011

Em busca do Psi

    Este post era pra ser o primeiro do blog, pois ao ingressar na faculdade de Psicologia e aprender que o tridente de Netuno, a letra grega Psi, é o símbolo deste saber, comecei a pensar nos seus significados e achei interessante escrever sobre ele.
Mas ao pesquisar sobre o tema, descobri que quase tudo já foi escrito em outros blogs, e que não era uma ideia nem um pouco original para um post!  No blog quase gêmeo deste (sorry pela pretensão!), Anima, - lindo e informativo, uma delícia de ler! - tem um post bem completo e muito esclarecedor sobre a origem do símbolo, que explica como o psi foi parar nas camisetas dos estudantes de psicologia mundo afora.  Mesmo sendo meio “batido”, achei que ainda seria válido dar minha contribuição, pois para mim o velho símbolo de Poseidon só trazia seu significado astrológico, aliás, muito rico.
Venice, Italy - By Todd Gipstein
 Desde muito pequena me sinto atraída pelo mar, pelas profundezas (da alma, do ser, das coisas, e do oceano inclusive), sendo eu mesma uma escorpiana, signo regido por Plutão, irmão e bem parecidinho com Netuno, pois ambos os planetas regem os processos mentais, conscientes e inconscientes.  Ao saber que o mesmo símbolo está relacionado aos estudos da psique humana, da sicentia de anima, como diziam os antigos, e aos processos inconscientes e mais profundos do indivíduo, parece que todas as fichas caíram. É claro que tinha que ser o símbolo da psicologia! Então, vejamos:
Diz-nos Jung que “a compreensão da criação de símbolos (origem no grego σύμβολον –sýmbolon)  é crucial para o entendimento da natureza humana”. Ψ ou psi é a vigésima terceira letra do alfabeto grego, correspondente ao fonema "psi" e ao número 17.
Estudar psicologia sem entender o significado profundo do seu símbolo representativo significa perder um elemento essencial para sua compreensão.  Embora este seja o começo da explicação sobre seu significado, não podemos esquecer que a letra "psi" tem uma historia e está associada a realidades muitos profundas, expressas a través da mitologia da cultura grega e romana, principalmente.  A letra Ψ é o principal símbolo representativo de Deus Poseidon (ou Netuno em Latim).
O Senhor das Profundezas rege não somente os mares, mas as profundezas do homem, e o inconsciente é o seu domínio. Seu símbolo, o tridente, originalmente representava sua força divina, usando como arma de guerra para se apoderar da alma dos seus detratores, para fazer  tremer a terra e surgir os mares, sendo que foi através desse processo que, segundo o mito grego, Poseidon deu de presente ao homem o cavalo. Agora sei também que as pontas do tridente  podem ser relacionadas a alguns conceitos bem importantes de psicanálise (as pulsões) e às correntes atuais da psicologia moderna (ver post no “Anima”), muito curioso!
O mar, por extensão, sempre significou o inconsciente, o desconhecido onde os homens podem se perder, se afogar, mas também podem buscar alívio para os seus males, buscar calma e serenidade (basta lembrar quantas pessoas, em todo o mundo, associam férias à praia!). Lembro de ouvir meu pai dizendo que “todo louco se acalma perto do mar”, ou ao contrário, se perde de vez em sua viagem interior. Pra mim, estar perto do oceano sempre trouxe paz e tranquilidade, e toda vez que preciso refletir, resolver um problema, ou  simplesmente quando estou triste e precisando ficar bem comigo mesma, uma boa caminhada na praia e alguns momentos olhando o mar trazem alívio e muitas vezes,  a solução.
 Então, foi muito significativo e interessante saber que o símbolo de Netuno é também o símbolo da profissão que eu escolhi, guiada por um forte desejo de mergulhar nas profundezas da alma humana em geral (e da minha em particular!). Pois como diz Fernando Pessoa naquele famoso poema onde diz também que tudo vale a pena se a alma não é pequena,

“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”
“Mar Portugûes”,1935


Trilha sonora para este post: 1."Beira Mar", Zé Ramalho,  "Antologia Acústica", 1997, BMG. 2. "Deep Ocean Vast Sea", Peter Murphy, "Deep", 1989