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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O mito de Eco e Narciso

Eco e Narciso
 Eco era uma linda ninfa que amava os bosques e as montanhas. Era a favorita de Diana (Deméter), ajudando-a nas caçadas. Mas Eco tinha um defeito: gostava muito de falar, e fosse uma conversa ou um debate, tinha sempre a última palavra.

Certa vez, Juno (Hera) estava procurando o marido, e tinha razões para suspeitar que ele estivesse se divertindo com as ninfas. Eco, com sua conversa, conseguiu deter a deusa por algum tempo, até que as ninfas pudessem escapar. Quando Juno descobriu o que se dera, sentenciou Eco com as seguintes palavras: “Confiscarei o uso de tua língua, essa com a qual me entretiveste, exceto para um único propósito de que tanto gostas: o de responder. Terás ainda a última palavra, mas não terás o poder de iniciar uma conversa.”.

Essa ninfa viu Narciso, um belíssimo rapaz que caçava sobre as montanhas. Apaixonou-se por ele e seguiu seus passos. Oh, como ela desejou abordá-lo com os ditos mais suaves para conquistar-lhe a atenção! Mas estava impotente para fazê-lo. Esperou com impaciência até que ele falasse primeiro, e já tinha sua resposta pronta. Certo dia, o jovem, estando separado de seus companheiros, gritou alto: “Há alguém aqui?” Eco respondeu: “Aqui!”. Narciso olhou ao redor, mas não vendo viva alma, bradou: “Vem!” Eco respondeu: “Vem!”. Como ninguém veio, Narciso chamou novamente: “Por que me evitas?” e Eco lançou a mesma pergunta. “Vamos nos juntar”, disse o jovem. A donzela respondeu com todo o seu coração, usando as mesmas palavras, e correu ao encontro de Narciso, pronta para abraça-lo. “Tira tuas mãos de mim! Eu preferiria morrer a ser teu”, disse ele, recuando. Depois disso, ela foi esconder sua vergonha no retiro do bosque. Daquele tempo em diante viveu nas cavernas e nas encostas das montanhas. Seu corpo definhou em virtude da tristeza, até que afinal as suas carnes desapareceram. Seus ossos tornaram-se pedras e nada restou de si, exceto a voz. E é assim que ela continua pronta para responder a qualquer pessoa que a chame, mantendo o seu velho hábito de ter sempre a última palavra.

"Narciso", de Caravaggio

A crueldade de Narciso nesse caso não foi um ato isolado. Ele rejeitou todas as demais ninfas, tal como havia feito com a pobre Eco. Um dia, uma donzela que tinha em vão procurado atrai-lo proferiu uma prece em que pedia que alguma vez Narciso sentisse o que é amar sem ser correspondido. A deusa da vingança, Nêmesis, ouviu a prece e consentiu que o pedido se realizasse.

Releitura de Caravaggio, by Vik Muniz

 Havia uma fonte cristalina, da qual jorrava água prateada, para a qual os pastores jamais levavam seus rebanhos, nem os cabritos montanheses frequentavam, nem qualquer outro animal da floresta; a relva crescia renovada ao redor, e as rochas abrigavam-na da luz solar. Para aquele lugar veio Narciso certa vez, cansado da caça, sentindo grande calor e sede. Inclinou-se para beber, e viu sua própria imagem na água. Pensou que se tratasse de algum lindo espírito das águas que residia na fonte. Fixou o seu olhar naqueles olhos brilhantes, naqueles cabelos cacheados como os de Baco ou Apolo, o rosto bem formado, o pescoço de marfim, os lábios abertos, e o viço da saúde e os sinais da prática dos esportes em toda parte. Apaixonou-se por aquela imagem, que era a imagem de si mesmo. Aproximou seus lábios dos lábios da imagem, mergulhou seus braços para envolver o seu amado. Contudo, a imagem se desfez com o toque, voltando a se formar depois de um momento, renovando o estado de fascinação do rapaz. Narciso ficou totalmente fora de si; não mais pensou em alimento ou repouso enquanto se debruçava sobre a fonte, olhando fixamente para a própria imagem. E assim falava ao suposto espírito: “Por que me rejeitas, ser maravilhoso? Certamente minha face não te causa repugnância. As ninfas me amam, e tudo mesmo não pareces estar indiferente a meu respeito. Quando estendo meus braços fazes o mesmo, e sorris quanto sorrio para ti.” Suas lágrimas caíram na água e distorceram a imagem. Quando via que o reflexo ia desaparecendo, exclamava: “Fica, eu te imploro! Deixa-me ao menos manter os meus olhos sobre ti, se não posso tocar-te!”. Com frases como essa e com muitas outras alimentou a chama que o consumiu, e aos poucos ele perdeu a sua cor, seu vigor, e a beleza que anteriormente encantara a ninfa Eco. Esta, todavia, manteve-se próxima a Narciso, e quando ele exclamava “Ai de mim! Ai de mim!”, ela respondia com as mesmas palavras. Narciso definhou e morreu, e quando a sua sombra passou pelo rio Estige, rumo ao Hades, debruçou-se sobre o barco para ver a sua imagem refletida no espelho das águas uma última vez. As ninfas choraram por Narciso, especialmente as ninfas das águas, e quando batiam em seu peito, Eco também batia no seu. Elas prepararam uma pira funerária e teriam cremado o corpo de Narciso, mas este não pôde ser encontrado. Em seu lugar, foi encontrada uma flor, púrpura por dentro, rodeada de folhas brancas, que recebeu o nome e preserva a memória de Narciso.



Referência Bibliográfica:
Bulfinch, Thomas, 1796-1867 - “Bufinch’s Mythology”: texto integral, tradução Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006.

domingo, 2 de outubro de 2011

Mitos e Psi

Estudando psicologia e principalmente a psicanálise, não tem como evitar estudar ou ao menos ficar curioso a cerca dos mitos, que acompanham o homem desde sempre e são inspiração para tantas teorias (complexo de édipo, pulsões - eros e thanatos, narcisismo). Sempre gostei de mitologia, grega primeiro, mas logo todas elas, mitos nórdicos, o nosso imenso e rico folclore brasileiro... Diana, Athena, Eros, Thor, Valhala, a Iara, o Saci, Morgana e Merlin, elfos, fadas, centauros, pégaso...tudo isso fez parte da minha fantasia infantil!

 Stan Lee's Thor, Marvel Comics
Os mitos representam nossa consciência coletiva ancestral, carregam simbologias comuns a quase todas as civilizações. Através deles explicamos e entendemos o mundo ao nosso redor e nós mesmos. 

Recorrendo novamente à prof. Marilena Chauí, aprendemos que o pensamento humano pode ser mítico e lógico: a língua grega possuia duas palavras para referir-se à linguagem: mythos e logos. Ao estudarmos a linguagem e da inteligência que falar e pensar são inseparáveis. Por isso, podemos nos referir a duas modalidades de pensamento, conforme predomine o mythos ou o logos.

A tradição filosófica, sobretudo a partir do século XVIII (com a filosofia da Ilustração) e do séc XIX (com a filosofia da história de Hegel e o positivismo de Comte), afirmava que do mito à lógica havia uma evolução do espírito humano, isto é, o mito era uma fase ou etapa deste espírito humano e da civilização que antecedia o advento da lógica ou do pensamento lógico, considerado a etapa posterior e evoluída do pensamento e da civilização. Essa tradição filosófica fez crer que o mito pertencia a culturas "inferiores", "primitivas" ou "atrasadas", enquanto o pensamento lógico ou racional pertenceria a culturas "superiores", "civilizadas" e "adiantadas".

Diana de Éfeso ou Artemis.
 Hoje, porém, sabe-se que a concepção evolutiva está equivocada.  O pensamento mítico pertence ao campo do pensamento e da linguagem simbólica, que coexistem com o campo do pensamento e da linguagem conceituais. 

Como o mito funciona

O antropólogo Claude Lévi-Strauss estudou o "pensamento selvagem" para mostrar que os chamados selvagens não são atrasados nem primitivos, mas operam com o pensamento mítico.
O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss, não são lendas nem fabulações, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Para explicar a composição de um mito, Lévi-Strauss se refere a uma atividade que exsite em nossa sociedade e que, em francês se cham bricolage.
Que faz um bricoleur, ou seja, quem pratica bricolage? Produz um objeto novo a partir de pedaços e fragmentos de outros objetos. Vai reunindo, sem um plano muito rígido, tudo o que encontra e que serve para o objeto que está compondo. O pensamento mítico faz exatamente a mesma coisa, isto é, vai reunindo as experiências, as narrativas, os relatos, até compor um mito geral. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas, suas funções e suas finalidades, os poderes divinos sobre a Natureza e sobre os humanos.
O mito possui, assim, três características principais:

1. Função explicativa: o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo. Por exemplo, as chuvas existem porque, nos tempos passados, uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendo unir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza, fazendo suas lágrimas caírem sbre o mundo, etc.

2. Função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de poder, etc) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões. Por exemplo, um mito como o de Édipo existe (com narrativas diferentes) em quase todas as sociedades selvagens e tem a função de garantir a proibição do incesto, sem a qual o sistema sociopolítico, baseao nas leis de parentesco e de alianças, não pode ser mantido;

3. Função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária.

O Titã Prometeu
Por exemplo, entre os mitos gregos, encontra-se o da origem do fogo, que Prometeu roubou do Olimpo para entregar aos mortais e permitir-lhes o desenvolvimento das técnicas. Numa das versões deste mito, narra-se que Prometeu disse aos homens que se protegessem da cólera de Zeus realizando o sacrifício de um boi, mas que se mostrassem mais astutos do que o deus, comendo as carnes e enviando-lhe as tripas e as gorduras. Zeus descobriu a artimanha e os homens seriam punidos com a perda do fogo se Prometeu não lhes ensinasse um nova artimanha: colocar perfumes e incenso nas partes dedicadas ao deus.
Com esse mito, narra-se o modo como os humanos se apropriaram de algo divino (o fogo) e criaram um ritual (o sacrifício de um animal com perfumes e incenso) para conservar o que haviam roubado dos deuses.
Assim opera o pensamento mítico: o mito reúne, junta, relaciona e faz elementos diferentes e heterogêneos agirem uns sobre os outros. Em segundo lugar, o mito organiza a realidade, dando às coisas, aos fatos, às instituições um sentido analógico e metafórico, isto é, uma coisa vale por outra, substitui outra, representa outra. E finalmente, o mito estabelece relações entre os seres naturais e humanos, seja fazendo os humanos nascerem, por exemplo, de animais, seja fazendo os astros decidirem a sorte e o destino dos homens, seja fazendo cores, metais e pedras definirem a natureza de um humano (como na magia, por exemplo).
A peculiaridade do símbolo mítico está no fato de ele encarnar aquilo que ele simboliza. Ou seja, o fogo não representa  alguma coisa, mas é a própria coisa simbolizada: é deus, é amor, é guerra, é conhecimento, é pureza, é fabricação e purificação, é o humano.
O fato de o símbolo mítico não representar, mas encarnar aquilo que é significado por ele, leva a dizer (com faz Lévi-Strauss) que o pensamento mítico é um pensamento sensível e concreto, e onde coisas são ideias, onde as palavras dão existência ou morte às coisas.


A psicologia lança mão do pensamento mítico seja na psicanálise de Freud (utlizou-se de figuras e símbolos míticos para conceituar diversos princípios da psicanálise - Eros/Thanatos/Édipo/Narciso) e, mais profundamente, nas ideias de Carl Gustav Young, que muito nos tem a dizer sobre os símbolos e o papel dos mitos na compreensão da nossa psique, ou inconsciente.

Abaixo, uma aula de história de filosofia sobre mito e razão,suas diferenças e conceitos fundamentais. A voz do professor é meio irritante, mas as ideias são muito boas, bem didático e fácil de entender!!


Espero que o vídeo e toda essa discussão sirva para aguçar a sua curiosidade em conhecer e entender o pensamento mítico, tão essencial para o conhecimento da nossa natureza humana!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sobre a Linguagem


Pessoal, nas duas últimas aulas de Linguagem do Marcelo estivemos lendo o texto de Robert J. Sternberg sobre a Natureza da Linguagem e sua Aquisição. Inspirada, resolvi estudar um pouquinho sobre o assunto e, novamente, a Tia Marilena foi de grande ajuda. Transcrevo abaixo um fragmento do capítulo 5 do "Convite à Filosofia", pois acho que completa e explica muito do que viemos discutindo em sala. Vou dividir em mais de um post porque tem muita coisa, e como tudo é muito interessante, fica difícil resumir sem perder o fio da meada!!

 
A importância da linguagem

Na abertura de sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um “animal político”, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom  e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dele, somente os homens são capazes.

Na mesma linha é o raciocínio de Rosseau no primeiro capítulo do "Ensaio sobre a origem das línguas":
“A palavra distingue os homens e os animais; a linguagem distingue as nações entre si. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado.” (Jean-Jacques Rosseau, 1712 – 1778)
Escrevendo sobre a teoria da linguagem, o linguista Hjelmslev afirma que “a linguagem é inseparável do homem, segue-o em todos os seus atos”, sendo
“o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana.”
Prosseguindo em sua apreciação sobre a importância da linguagem, Rosseau considera que a linguagem nasce de uma profunda necessidade de comunicação:
“Desde que  o homem foi reconhecido por outro como um ser sensível, pensante e semelhante a si próprio, o desejo e a necessidade de comunicar-lhes seus sentimentos e pensamentos fizeram-no buscar meios para isto.”
Gestos e vozes, na busca da expressão e da comunicação, fizeram surgir a linguagem.
Por seu turno, Hjelmslev afirma que a linguagem é
“o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador.”
A linguagem, diz ele, está sempre à nossa volta, sempre pronta a envolver nossos pensamentos e sentimentos, acompanhando-nos em toda nossa vida. Ela não é um simples acompanhamento do pensamento, “mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento”, é “o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de geração a geração.”

A linguagem é, assim, a forma propriamente humana da comunicação , da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política, do pensamento e das artes.

No entanto, no diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é um pharmakon. Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno ou cosmético. (neste link, um site maravilhoso sobre Platão com os diálogos comentados, muito interessante - pra quem gosta da filosofia, é claro!)

Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois pelo diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. A linguagem pode ser conhecimento-comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução.


"The Tower of Babel", Brueghel, 1563 - Oil on panel, Kunsthistoriches Museum, Vienna.

Essa mesma ideia da linguagem como possibilidade  de comunicação-conhecimento e de dissimulação-desconhecimento aparece na Bíblia judaico-cristã, no mito da Torre de Babel, quando Deus lançou a confusão entre os homens, fazendo com que perdessem a língua comum e passassem a falar línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo as portas para todos os desentendimentos e guerras. A pluralidade das línguas é explicada, na Escritura Sagrada, como punição porque os homens ousaram imaginar que poderiam construir uma torre que alcançasse o céu, isto é, ousaram imaginar que teriam um poder e um lugar semelhante ao da divindade. “Que sejam confundidos”, disse Deus.

A origem da linguagem


Durante muito tempo a filosofia preocupou-se em definir a origem e as causas da linguagem.
Vaso Grego, Séc IV a.C.
 Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural aos homens (é inata, existe por natureza?) ou é uma convenção social (aprendida?)? Se a linguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e necessário; se for convencional, são decisões consensuais da sociedade e, nesse caso, são arbitrárias, isto é, a sociedade poderia ter escolhido outras palavras para designar as coisas.

Essa discussão levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: a linguagem, como capacidade de expressão dos seres humanos, é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográfica, econômicas e políticas determinadas, ou , em outros termos, são fatos culturais. Uma vez constituída uma língua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidades internas (sintaxe), passando a funcionar como se fosse algo natural, isto é, como algo que possui suas leis e princípios próprios, independentes dos sujeitos falantes que a empregam.


Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de respostas:

  1.  A linguagem nasce por imitação, isto é, os humanos imitam, pela voz, os sons da Natureza. A origem da língua seria, portanto, a onomatopeia ou imitação dos sons animais e naturais.
  2.  A linguagem nasce por imitação dos gestos, isto é , nasce como uma espécie de pantomima ou encenação, na qual o gesto indica um sentido. Pouco a pouco, o gesto passou a ser acompanhado de sons e estes se tornaram gradualmente palavras, substituindo os gestos.
  3. A linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a necessidade de abrigar-se e proteger-se, a necessidade de reunir-se em grupo para defender-se das intempéries, dos animais e de outros homens mais fortes levaram à criação de palavras, formando um vocabulário elementar e rudimentar, que, gradativamente, tornou-se mais complexo e transformou-se numa língua;
  4. A língua nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa ou alegria), do choro (dor, medo, compaixão) e do riso (prazer, bem-estar, felicidade).

     Citando novamente Rousseau em seu “Ensaio sobre a origem das línguas”:

“Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes... Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas.”

Assim, a linguagem, nascendo das paixões, foi primeiro linguagem figurada e por isso surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as vogais nasceram antes das consoantes. Assim como a pintura nasceu antes da escrita, assim também os homens primeiro cantaram seus sentimentos e só muito depois exprimiram seus pensamentos.


Essas teorias não são excludentes. É muito possível que a linguagem tenha nascido de todas essas fontes ou modos de expressão, e os estudos de Psicologia Genética (isto é, da gênese da percepção, imaginação, memória, linguagem e inteligência nas crianças) mostram que uma criança se vale de todos esses meios para começar a exprimir-se. Uma linguagem se constitui quando passa dos meios de expressão aos de significação, ou quando passa do expressivo ao significativo.

Mas isso já é assunto para outro post, que esse já está bem grandinho!

Para terminar, já que a autora afirma que os homens primeiro cantaram seus sentimentos, uma musiquinha do velho Mano Caetano que expressa muito bem sentimentos, pensamentos e emoções acerca da nossa língua pátria, “a última flor do Lácio”, sempre citada nas nossas aulas, sejam de Linguagem ou Filosofia!!!


 


Referência Bibliográfica: CHAUÍ, Marilena. "Convite à Filosofia". Rio de Janeiro. Editora Ática. 1997.


domingo, 5 de junho de 2011

Em busca do Psi

    Este post era pra ser o primeiro do blog, pois ao ingressar na faculdade de Psicologia e aprender que o tridente de Netuno, a letra grega Psi, é o símbolo deste saber, comecei a pensar nos seus significados e achei interessante escrever sobre ele.
Mas ao pesquisar sobre o tema, descobri que quase tudo já foi escrito em outros blogs, e que não era uma ideia nem um pouco original para um post!  No blog quase gêmeo deste (sorry pela pretensão!), Anima, - lindo e informativo, uma delícia de ler! - tem um post bem completo e muito esclarecedor sobre a origem do símbolo, que explica como o psi foi parar nas camisetas dos estudantes de psicologia mundo afora.  Mesmo sendo meio “batido”, achei que ainda seria válido dar minha contribuição, pois para mim o velho símbolo de Poseidon só trazia seu significado astrológico, aliás, muito rico.
Venice, Italy - By Todd Gipstein
 Desde muito pequena me sinto atraída pelo mar, pelas profundezas (da alma, do ser, das coisas, e do oceano inclusive), sendo eu mesma uma escorpiana, signo regido por Plutão, irmão e bem parecidinho com Netuno, pois ambos os planetas regem os processos mentais, conscientes e inconscientes.  Ao saber que o mesmo símbolo está relacionado aos estudos da psique humana, da sicentia de anima, como diziam os antigos, e aos processos inconscientes e mais profundos do indivíduo, parece que todas as fichas caíram. É claro que tinha que ser o símbolo da psicologia! Então, vejamos:
Diz-nos Jung que “a compreensão da criação de símbolos (origem no grego σύμβολον –sýmbolon)  é crucial para o entendimento da natureza humana”. Ψ ou psi é a vigésima terceira letra do alfabeto grego, correspondente ao fonema "psi" e ao número 17.
Estudar psicologia sem entender o significado profundo do seu símbolo representativo significa perder um elemento essencial para sua compreensão.  Embora este seja o começo da explicação sobre seu significado, não podemos esquecer que a letra "psi" tem uma historia e está associada a realidades muitos profundas, expressas a través da mitologia da cultura grega e romana, principalmente.  A letra Ψ é o principal símbolo representativo de Deus Poseidon (ou Netuno em Latim).
O Senhor das Profundezas rege não somente os mares, mas as profundezas do homem, e o inconsciente é o seu domínio. Seu símbolo, o tridente, originalmente representava sua força divina, usando como arma de guerra para se apoderar da alma dos seus detratores, para fazer  tremer a terra e surgir os mares, sendo que foi através desse processo que, segundo o mito grego, Poseidon deu de presente ao homem o cavalo. Agora sei também que as pontas do tridente  podem ser relacionadas a alguns conceitos bem importantes de psicanálise (as pulsões) e às correntes atuais da psicologia moderna (ver post no “Anima”), muito curioso!
O mar, por extensão, sempre significou o inconsciente, o desconhecido onde os homens podem se perder, se afogar, mas também podem buscar alívio para os seus males, buscar calma e serenidade (basta lembrar quantas pessoas, em todo o mundo, associam férias à praia!). Lembro de ouvir meu pai dizendo que “todo louco se acalma perto do mar”, ou ao contrário, se perde de vez em sua viagem interior. Pra mim, estar perto do oceano sempre trouxe paz e tranquilidade, e toda vez que preciso refletir, resolver um problema, ou  simplesmente quando estou triste e precisando ficar bem comigo mesma, uma boa caminhada na praia e alguns momentos olhando o mar trazem alívio e muitas vezes,  a solução.
 Então, foi muito significativo e interessante saber que o símbolo de Netuno é também o símbolo da profissão que eu escolhi, guiada por um forte desejo de mergulhar nas profundezas da alma humana em geral (e da minha em particular!). Pois como diz Fernando Pessoa naquele famoso poema onde diz também que tudo vale a pena se a alma não é pequena,

“Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”
“Mar Portugûes”,1935


Trilha sonora para este post: 1."Beira Mar", Zé Ramalho,  "Antologia Acústica", 1997, BMG. 2. "Deep Ocean Vast Sea", Peter Murphy, "Deep", 1989