domingo, 16 de outubro de 2011

Dia dos Professores



Hoje foi o Dia dos Professores, dia de homenagear todos aqueles que se esforçam para ensinar neste país. É até uma ironia falar deste dia de homenagem em um país que não valoriza a educação, onde, historicamente, a profissão de professor só é alternativa para alguns poucos que dão aulas por vocação mesmo, por que não sabem e não querem fazer outra coisa. Cada vez menos estudantes querem ser professores, por que será??? Salário indigno, péssimas condições de trabalho, e nos tempos de loucura que vivemos, até risco de vida...

Ser professor exige dedicação, preparo, horas de estudo, tempo, paciência, e, mais que tudo, amor pelo saber, vontade de contribuir para o crescimento individual dos alunos e da sociedade. Ser professor significa passar horas (muitas vezes do final de semana, em casa, sem remuneração) corrigindo trabalhos e provas, pesquisando para fazer o conteúdo mais interessante e suas aulas mais agradáveis...

Eu sou filha de professores, e quando criança adorava poder ir para a escola com a minha mãe, e ficar bem quietinha lá no fundo da sala (desde então gosto do fundão!), observando tudo, rabiscando quando eu ainda não sabia escrever, depois fazendo as minhas tarefas de escola. Adorava escrever com giz colorido no quadro verde, e quando minha mãe me pedia pra fazer a chamada da turma, era a glória!! Com certeza, muitos momentos felizes da minha infância passei dentro de uma escola, seja na sala de aula, no pátio ou na biblioteca!! 


Em casa, uma das brincadeiras favoritas era "de aulinha", com minha propria lousa e caixinha de giz, uma delícia!! Eu e minha prima ficávamos horas dando aula uma pra outra, pras bonecas, pros adultos que quisessem participar da brincadeira... Nessa brincadeira, me alfabetizei com 5 anos, antes do primeiro ano escolar (minha prima é alguns anos mais velha do que eu, me ensinou as primeiras letras!), e conseguimos motivar minha babá, analfabeta, a cursar o MOBRAL (programa do governo para alfabetização de adultos da minha época), pois ela conseguiu aprender um pouquinho brincando com a gente, e lá foi, bem feliz, atrás da sua cidadania!!! Depois de crescida, vi meu pai, já quase se aposentando da advocacia e serviço público, fazer doutorado e concurso para dar aulas na Universidade. Pela pura vontade de estudar e ensinar, por amor ao saber...


Ser professora foi para mim uma escolha quase natural, óbvia. E me sinto muito sortuda de ter tido a oportunidade de crescer em um ambiente que valoriza a educação, a leitura, o amor aos livros, o respeito às ideias alheias, e sobretudo, a valorizar as diferenças...

Hoje eu estou afastada (temporariamente, que fique bem claro) da sala de aula, e tenho saudade dos meus alunos, dos meus colegas, da sala dos professores, das reuniões... Mas estou "do outro lado", estou aluna, indo atrás do meu sonho na universidade, e tendo a chance de conhecer e conviver com professores ótimos, jovens, brilhantes, motivados, que me fazem querer aprender e saber mais e mais a cada dia... Que me fazem ainda pensar: "Quero ser que nem ele(a) quando crescer!", e isso é muito bom!!!! Tenho certeza que logo estarei de volta à docência, gostaria muito de usar a minha experiência e o meu saber para contribuir na formação de outros, sejam professores ou futuros psicólogos. Este objetivo é o que me move e me dá gás pra continuar estudando, lendo, pesquisando, discutindo, aprendendo!

Ouvimos, desde o início do novo governo da Presidenta, que o Brasil está investindo na educação, que esta é a meta mais importante desta gestão. Gostaria muitíssimo de acreditar, de ver realmente investimentos em formação de professores, mais e melhores escolas, aparelhadas com tecnologia, condições para que os professores estejam sempre reciclando seu saber, aprendendo, melhorando junto com os alunos (a educação de qualidade é uma via de mão dupla,  só pode ensinar que aprende também), e principalmente, a valorização dos professores. Salários dignos, incentivos, cursos... Sem alunos tendo aula em containers de aço...

A única  forma de o Brasil realmente dar um salto de desenvolvimento e ser "o país do futuro" que ouvimos falar a tanto tempo é através da educação da sua população, pois é com educação que se  constrói cidadania, participação ativa e mão de obra qualificada. O desenvolvimento da eduação faz com que a saúde e as condições de vida da população melhorem, faz com que todos tenham mais oportunidades de crescimento. Assim, que sabe, possamos atenuar as diferenças sociais tão gritantes no nosso país. Será que estou acreditando numa utopia?? Pode ser, todo professor é um pouco sonhador, mas prefiro acreditar que 
  
"sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade!"

Parabéns e meu sincero MUITO OBRIGADA a todos os meus mestres,  passados e atuais, e tb ao futuros, porque tenho muito chão pela frente nessa caminhada rumo à minha formação!! Acho que eu não vou deixar de ser aluna nunca, hehe!


Deixo  que as palavras do grande Mestre Paulo Freire, que muito ensinou a todos nós, falem por mim:

"Ninguém nega o valor da educação, e que um bom professor é imprescindível. Mas ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores fica o convite para que não se descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem "águias", e não apenas "galinhas". Pois se a educação sozinho não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda."                              Paulo Freire


Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O mito de Eco e Narciso

Eco e Narciso
 Eco era uma linda ninfa que amava os bosques e as montanhas. Era a favorita de Diana (Deméter), ajudando-a nas caçadas. Mas Eco tinha um defeito: gostava muito de falar, e fosse uma conversa ou um debate, tinha sempre a última palavra.

Certa vez, Juno (Hera) estava procurando o marido, e tinha razões para suspeitar que ele estivesse se divertindo com as ninfas. Eco, com sua conversa, conseguiu deter a deusa por algum tempo, até que as ninfas pudessem escapar. Quando Juno descobriu o que se dera, sentenciou Eco com as seguintes palavras: “Confiscarei o uso de tua língua, essa com a qual me entretiveste, exceto para um único propósito de que tanto gostas: o de responder. Terás ainda a última palavra, mas não terás o poder de iniciar uma conversa.”.

Essa ninfa viu Narciso, um belíssimo rapaz que caçava sobre as montanhas. Apaixonou-se por ele e seguiu seus passos. Oh, como ela desejou abordá-lo com os ditos mais suaves para conquistar-lhe a atenção! Mas estava impotente para fazê-lo. Esperou com impaciência até que ele falasse primeiro, e já tinha sua resposta pronta. Certo dia, o jovem, estando separado de seus companheiros, gritou alto: “Há alguém aqui?” Eco respondeu: “Aqui!”. Narciso olhou ao redor, mas não vendo viva alma, bradou: “Vem!” Eco respondeu: “Vem!”. Como ninguém veio, Narciso chamou novamente: “Por que me evitas?” e Eco lançou a mesma pergunta. “Vamos nos juntar”, disse o jovem. A donzela respondeu com todo o seu coração, usando as mesmas palavras, e correu ao encontro de Narciso, pronta para abraça-lo. “Tira tuas mãos de mim! Eu preferiria morrer a ser teu”, disse ele, recuando. Depois disso, ela foi esconder sua vergonha no retiro do bosque. Daquele tempo em diante viveu nas cavernas e nas encostas das montanhas. Seu corpo definhou em virtude da tristeza, até que afinal as suas carnes desapareceram. Seus ossos tornaram-se pedras e nada restou de si, exceto a voz. E é assim que ela continua pronta para responder a qualquer pessoa que a chame, mantendo o seu velho hábito de ter sempre a última palavra.

"Narciso", de Caravaggio

A crueldade de Narciso nesse caso não foi um ato isolado. Ele rejeitou todas as demais ninfas, tal como havia feito com a pobre Eco. Um dia, uma donzela que tinha em vão procurado atrai-lo proferiu uma prece em que pedia que alguma vez Narciso sentisse o que é amar sem ser correspondido. A deusa da vingança, Nêmesis, ouviu a prece e consentiu que o pedido se realizasse.

Releitura de Caravaggio, by Vik Muniz

 Havia uma fonte cristalina, da qual jorrava água prateada, para a qual os pastores jamais levavam seus rebanhos, nem os cabritos montanheses frequentavam, nem qualquer outro animal da floresta; a relva crescia renovada ao redor, e as rochas abrigavam-na da luz solar. Para aquele lugar veio Narciso certa vez, cansado da caça, sentindo grande calor e sede. Inclinou-se para beber, e viu sua própria imagem na água. Pensou que se tratasse de algum lindo espírito das águas que residia na fonte. Fixou o seu olhar naqueles olhos brilhantes, naqueles cabelos cacheados como os de Baco ou Apolo, o rosto bem formado, o pescoço de marfim, os lábios abertos, e o viço da saúde e os sinais da prática dos esportes em toda parte. Apaixonou-se por aquela imagem, que era a imagem de si mesmo. Aproximou seus lábios dos lábios da imagem, mergulhou seus braços para envolver o seu amado. Contudo, a imagem se desfez com o toque, voltando a se formar depois de um momento, renovando o estado de fascinação do rapaz. Narciso ficou totalmente fora de si; não mais pensou em alimento ou repouso enquanto se debruçava sobre a fonte, olhando fixamente para a própria imagem. E assim falava ao suposto espírito: “Por que me rejeitas, ser maravilhoso? Certamente minha face não te causa repugnância. As ninfas me amam, e tudo mesmo não pareces estar indiferente a meu respeito. Quando estendo meus braços fazes o mesmo, e sorris quanto sorrio para ti.” Suas lágrimas caíram na água e distorceram a imagem. Quando via que o reflexo ia desaparecendo, exclamava: “Fica, eu te imploro! Deixa-me ao menos manter os meus olhos sobre ti, se não posso tocar-te!”. Com frases como essa e com muitas outras alimentou a chama que o consumiu, e aos poucos ele perdeu a sua cor, seu vigor, e a beleza que anteriormente encantara a ninfa Eco. Esta, todavia, manteve-se próxima a Narciso, e quando ele exclamava “Ai de mim! Ai de mim!”, ela respondia com as mesmas palavras. Narciso definhou e morreu, e quando a sua sombra passou pelo rio Estige, rumo ao Hades, debruçou-se sobre o barco para ver a sua imagem refletida no espelho das águas uma última vez. As ninfas choraram por Narciso, especialmente as ninfas das águas, e quando batiam em seu peito, Eco também batia no seu. Elas prepararam uma pira funerária e teriam cremado o corpo de Narciso, mas este não pôde ser encontrado. Em seu lugar, foi encontrada uma flor, púrpura por dentro, rodeada de folhas brancas, que recebeu o nome e preserva a memória de Narciso.



Referência Bibliográfica:
Bulfinch, Thomas, 1796-1867 - “Bufinch’s Mythology”: texto integral, tradução Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006.

domingo, 2 de outubro de 2011

Mitos e Psi

Estudando psicologia e principalmente a psicanálise, não tem como evitar estudar ou ao menos ficar curioso a cerca dos mitos, que acompanham o homem desde sempre e são inspiração para tantas teorias (complexo de édipo, pulsões - eros e thanatos, narcisismo). Sempre gostei de mitologia, grega primeiro, mas logo todas elas, mitos nórdicos, o nosso imenso e rico folclore brasileiro... Diana, Athena, Eros, Thor, Valhala, a Iara, o Saci, Morgana e Merlin, elfos, fadas, centauros, pégaso...tudo isso fez parte da minha fantasia infantil!

 Stan Lee's Thor, Marvel Comics
Os mitos representam nossa consciência coletiva ancestral, carregam simbologias comuns a quase todas as civilizações. Através deles explicamos e entendemos o mundo ao nosso redor e nós mesmos. 

Recorrendo novamente à prof. Marilena Chauí, aprendemos que o pensamento humano pode ser mítico e lógico: a língua grega possuia duas palavras para referir-se à linguagem: mythos e logos. Ao estudarmos a linguagem e da inteligência que falar e pensar são inseparáveis. Por isso, podemos nos referir a duas modalidades de pensamento, conforme predomine o mythos ou o logos.

A tradição filosófica, sobretudo a partir do século XVIII (com a filosofia da Ilustração) e do séc XIX (com a filosofia da história de Hegel e o positivismo de Comte), afirmava que do mito à lógica havia uma evolução do espírito humano, isto é, o mito era uma fase ou etapa deste espírito humano e da civilização que antecedia o advento da lógica ou do pensamento lógico, considerado a etapa posterior e evoluída do pensamento e da civilização. Essa tradição filosófica fez crer que o mito pertencia a culturas "inferiores", "primitivas" ou "atrasadas", enquanto o pensamento lógico ou racional pertenceria a culturas "superiores", "civilizadas" e "adiantadas".

Diana de Éfeso ou Artemis.
 Hoje, porém, sabe-se que a concepção evolutiva está equivocada.  O pensamento mítico pertence ao campo do pensamento e da linguagem simbólica, que coexistem com o campo do pensamento e da linguagem conceituais. 

Como o mito funciona

O antropólogo Claude Lévi-Strauss estudou o "pensamento selvagem" para mostrar que os chamados selvagens não são atrasados nem primitivos, mas operam com o pensamento mítico.
O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss, não são lendas nem fabulações, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Para explicar a composição de um mito, Lévi-Strauss se refere a uma atividade que exsite em nossa sociedade e que, em francês se cham bricolage.
Que faz um bricoleur, ou seja, quem pratica bricolage? Produz um objeto novo a partir de pedaços e fragmentos de outros objetos. Vai reunindo, sem um plano muito rígido, tudo o que encontra e que serve para o objeto que está compondo. O pensamento mítico faz exatamente a mesma coisa, isto é, vai reunindo as experiências, as narrativas, os relatos, até compor um mito geral. Com esses materiais heterogêneos produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas, suas funções e suas finalidades, os poderes divinos sobre a Natureza e sobre os humanos.
O mito possui, assim, três características principais:

1. Função explicativa: o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo. Por exemplo, as chuvas existem porque, nos tempos passados, uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendo unir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza, fazendo suas lágrimas caírem sbre o mundo, etc.

2. Função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de poder, etc) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões. Por exemplo, um mito como o de Édipo existe (com narrativas diferentes) em quase todas as sociedades selvagens e tem a função de garantir a proibição do incesto, sem a qual o sistema sociopolítico, baseao nas leis de parentesco e de alianças, não pode ser mantido;

3. Função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária.

O Titã Prometeu
Por exemplo, entre os mitos gregos, encontra-se o da origem do fogo, que Prometeu roubou do Olimpo para entregar aos mortais e permitir-lhes o desenvolvimento das técnicas. Numa das versões deste mito, narra-se que Prometeu disse aos homens que se protegessem da cólera de Zeus realizando o sacrifício de um boi, mas que se mostrassem mais astutos do que o deus, comendo as carnes e enviando-lhe as tripas e as gorduras. Zeus descobriu a artimanha e os homens seriam punidos com a perda do fogo se Prometeu não lhes ensinasse um nova artimanha: colocar perfumes e incenso nas partes dedicadas ao deus.
Com esse mito, narra-se o modo como os humanos se apropriaram de algo divino (o fogo) e criaram um ritual (o sacrifício de um animal com perfumes e incenso) para conservar o que haviam roubado dos deuses.
Assim opera o pensamento mítico: o mito reúne, junta, relaciona e faz elementos diferentes e heterogêneos agirem uns sobre os outros. Em segundo lugar, o mito organiza a realidade, dando às coisas, aos fatos, às instituições um sentido analógico e metafórico, isto é, uma coisa vale por outra, substitui outra, representa outra. E finalmente, o mito estabelece relações entre os seres naturais e humanos, seja fazendo os humanos nascerem, por exemplo, de animais, seja fazendo os astros decidirem a sorte e o destino dos homens, seja fazendo cores, metais e pedras definirem a natureza de um humano (como na magia, por exemplo).
A peculiaridade do símbolo mítico está no fato de ele encarnar aquilo que ele simboliza. Ou seja, o fogo não representa  alguma coisa, mas é a própria coisa simbolizada: é deus, é amor, é guerra, é conhecimento, é pureza, é fabricação e purificação, é o humano.
O fato de o símbolo mítico não representar, mas encarnar aquilo que é significado por ele, leva a dizer (com faz Lévi-Strauss) que o pensamento mítico é um pensamento sensível e concreto, e onde coisas são ideias, onde as palavras dão existência ou morte às coisas.


A psicologia lança mão do pensamento mítico seja na psicanálise de Freud (utlizou-se de figuras e símbolos míticos para conceituar diversos princípios da psicanálise - Eros/Thanatos/Édipo/Narciso) e, mais profundamente, nas ideias de Carl Gustav Young, que muito nos tem a dizer sobre os símbolos e o papel dos mitos na compreensão da nossa psique, ou inconsciente.

Abaixo, uma aula de história de filosofia sobre mito e razão,suas diferenças e conceitos fundamentais. A voz do professor é meio irritante, mas as ideias são muito boas, bem didático e fácil de entender!!


Espero que o vídeo e toda essa discussão sirva para aguçar a sua curiosidade em conhecer e entender o pensamento mítico, tão essencial para o conhecimento da nossa natureza humana!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Imersa em Psicanálise

Sim, assim estou me sentindo neste segundo semestre de Psicologia.
Na disciplina de TSP II (Teorias e Sistemas Psicológicos) esta é a ênfase dos nossos estudos, especificamente uma introdução às obras de Sigmund Freud, por serem essenciais ao entendimento do que é a Psicanálise, como ela se desenvolveu e para que serve.

Começamos com um panorama sobre a vida de Freud e uma visão cronológica de sua extensa obra. Freud escreveu muito (muito trabalho à vista...). Suas primeiras publicações datam de 1895, e até poucas semanas de sua morte ele dedicava várias horas do seu dia à produção de artigos e resenhas. Seu último escrito, "Moisés e o Monoteísmo", foi concluído em 1939.

A importância de suas descobertas e a sua concepção do Inconsciente como sendo a instância primordial da formação da psique humana é indiscutível, mesmo para aqueles que não acreditam na eficácia da psicanálise enquanto "terapia". Com Freud, inagura-se o conceito de Incosciente no estudo da Psicologia, através do discentramento da racionalidade consciente (Cartesianismo), e cria-se a subjetividade inconsciente.  É certo que a psicanálise sofreu e ainda sofre muitas críticas, normalmente à alegada "pansexualização" de seus postulados. Mas ao lermos e estudarmos os textos de Freud, percebemos que, ao contrário do que prega o senso comum a cerca da psicanálise, ela não trata somente de sexo e não resume tudo a problemas da vida sexual do indivíduo. Somente aqueles que não conhecem a Psicanálise ou tem um entendimento limitado dos seus conceitos fazem essa crítica.

Os conceitos psicanalíticos de Ego e Superego (que se traduzem melhor por EU e SUPEREU), do Complexo de Édipo, de recalque, transferência e catarse, já pertencem de certo modo à cultura pop, pois mesmo quem nunca estudou psicologia, psicanálise ou qualquer outra "psicocoisa" já ouviu falar disso, já criou algum conceito e sabe (ou acha que sabe) do que se trata quando tais termos são citados. As idéias de Freud acerca do Complexo de Édipo e sua afirmação da existência de uma sexualidade infantil da qual todos somos, de alguma forma, produtos, foram e continuam sendo as mais combatidas e criticadas. "Para Freud tudo se resume a sexo", ouvimos. Antes de estudar a Psicanálise e ler um pouquinho o que o pai deste saber tem a dizer sobre o assunto, eu também fiz tal julgamento!

O entendimento freudiano de sexualidade vai além do que normalmente entendemos como "sexual", mero encontro de genitais em busca de prazer e todas as ações, movimentos, emoções, experiências que envolvem essa busca. O conceito de libido como sendo algo que nos move em busca de satisfação pode ser análogo de motivação, para dar um exemplo.E precisamos "investir libido" no mundo para fazer quase tudo, estudar, trabalhar, buscar nossos ideais e a realização dos nossos desejos, incluindo os sexuais!
  
"A psicanálise nos ensinou que são as vicissitudes da libido do indivíduo que decidem em favor da saúde ou da moléstia humana."


Através do estudo dos estados mórbidos e patológicos (como a histeria e as neuroses), Freud demonstrou que todos temos um aparelho psíquico potente, que existe em todo ser humano uma vasta área inconsciente, que talvez seja a fonte de toda a nossa vida psíquica, e que o conflito entre os nossos pensamentos e desejos inconscientes e o que é experimentado pela nossa consciência é, afinal de contas, constituinte da nossa própria condição humana.

O conceito de Inconsciente nos foi apresentado através da leitura do texto "Cinco Liçoes de Psicanálise", de 1910, uma série de conferências do Dr. Freud na Universidade de Worcester, em Massachussets, onde a psicanálise foi apresentada pela primeira vez nos Estados Unidos.  Neste texto,  ele nos diz que

"...num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar mais ou menos independentes entre si, sem que um 'nada saiba' do outro, e que podem se alternar entre si em sua emersão à consciência.(...) Quando nessa divisão da personalidade a consciência fica constantemente ligada a um desses dois estados, chama-se esse o estado mental conscience e o que dela permanece separado o inconsciente."
 Esta divisão entre conteudo consciente e inconsciente da mente humana é muito importante, e quando fazemos análise (ou terapia) procuramos o auto-conhecimento através de um melhor entendimento ou o resgate mesmo dos conteúdos inconscientes da nossa mente, que podem nos gerar um sintoma (patológico) ou simplesmente sofrimento psíquico. Como o conflito e uma certa neurose fazem parte da condição humana, o acesso aos conteúdos no nosso inconsciente só pode ser benéfico, mas como alcançá-los??

Em uma de suas obras mais importantes, "A Interpretação dos Sonhos", de 1900,  Freud nos mostra que através do estudo dos sonhos podemos ter acesso aos conteúdos do nosso inconsciente que estão normalmente inacessíveis ao nosso entendimento, e através da análise de sua simbologia, encontrar significação para diversos processos mentais importantes para o nosso auto conhecimento.  Para  Freud, "a interpretação dos sonhos é na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente e a base mais segura da psicanálise." Os sonhos são realizações de desejos inconscientes, e, ao serem tão semelhantes à loucura, nos fazem perceber claramente que a diferença entre um estado dito "normal"  e um estado patológico ou de sofrimento psíquico é muito tênue.
"Uma pessoa sadia é virtualmente um neurótico, só que os únicos sintomas que ela consegue produzir são os seus sonhos."
A Psicanálise nos apresenta outras formas de acesso à nossa mente inconsciente, e diversos conceitos importantes a cerca da estruturação da psique humana, mas não é o objetivo deste post esgotar o assunto ou tentar resumir tudo o que temos lido e estudado até agora.

Na verdade o que tentamos fazer é apenas uma introdução a esse estudo fascinante, que tem me dado muito prazer e me ensinado muitas coisas, apesar da nossa professora dizer que "as fichas só caem depois", que é necessário algum tempo de "digestão" da psicanálise. Então, continuaremos lendo, refletindo, digerindo, buscando um entendimento desse saber que, na minha opinião, é essencial na nossa formação em Psicologia.

Desde o início do semestre já lemos os textos "A concepção piscanalítica da perturbação psicogênica da visão", de 1910, "A Psicanálise selvagem" também de 1910, "Uma nota sobre o incosciente na psicanálise" de 1912, "Algumas lições elementares de Psicanálise", de 1940,  eu "Uma dificuldade no caminho da psicanálise", belo texto de 1917, onde Freud nos fala do narcisismo e das grandes feridas que a ciência moderna causou no narcisismo do homem, onde nos diz:
  "Volte seus olhos para dentro, contemple suas próprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se! Então compreenderá por que está destinado a ficar doente, e talvez evite adoecer no futuro."
Muito temos ainda para ler e aprender com o Dr. Freud, o caminho é longo, mas tenho certeza que será de muitas descobertas (e polêmicas nas nossas aulas!!). Nos próximos posts, mais psicanálise (falaremos das feridas narcísicas citadas acima) e uma introdução aos mitos que deram origem a alguns conceitos psicanalíticos que estamos conhecendo neste semestre.

Links relacionados a este post:

Blog do Favre - Sobre a reedição das obras completas de Freud, com tradução atualizada.
Freud Museum (Londres)
Lista de links da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre


Referências Bibliográficas:

FREUD, S. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1996.
___________. (1900) A Interpretação dos sonhos, v.V
___________. (1910) A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão, v.XI
___________. (1910) A Psicanálise selvagem, v.XI
___________. (1912) Uma nota sobre o incosciente na psicanálise, v.XII
___________. (1917) Uma dificuldade no caminho da psicanálise, v.XVII

FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise; seleção de textos de Jayme Salomão; tradução de Durval Marcondes (et al.), São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Thank You!

Chegamos a 2000 acessos!! Nem nos meu sonhos mais loucos imaginei que tanta gente iria ler o que escrevo pra me distrair e aprender mais! Muitíssimo obrigada, isso me dá mais vontade de pensar em posts novinhos e interessantes para continuar essa brincadeira!! 

Escrever um blog é uma forma de exibicionismo, diz meu professor Pedro, e sempre que escrevemos, mesmo que sobre assuntos variados, na verdade estamos escrevendo sobre nós mesmos e "descarregando nossa libido" (entendendo libido aqui como "desejo de criação", é claro!). Então, sou muito grata por poder fazer isso e ser lida!!!!
Será que sou exibicionista?? Acho que sim, a little!!




terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sobre a Linguagem


Pessoal, nas duas últimas aulas de Linguagem do Marcelo estivemos lendo o texto de Robert J. Sternberg sobre a Natureza da Linguagem e sua Aquisição. Inspirada, resolvi estudar um pouquinho sobre o assunto e, novamente, a Tia Marilena foi de grande ajuda. Transcrevo abaixo um fragmento do capítulo 5 do "Convite à Filosofia", pois acho que completa e explica muito do que viemos discutindo em sala. Vou dividir em mais de um post porque tem muita coisa, e como tudo é muito interessante, fica difícil resumir sem perder o fio da meada!!

 
A importância da linguagem

Na abertura de sua obra Política, Aristóteles afirma que somente o homem é um “animal político”, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais, escreve Aristóteles, possuem voz (phone) e com ela exprimem dor e prazer, mas o homem possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom  e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dele, somente os homens são capazes.

Na mesma linha é o raciocínio de Rosseau no primeiro capítulo do "Ensaio sobre a origem das línguas":
“A palavra distingue os homens e os animais; a linguagem distingue as nações entre si. Não se sabe de onde é um homem antes que ele tenha falado.” (Jean-Jacques Rosseau, 1712 – 1778)
Escrevendo sobre a teoria da linguagem, o linguista Hjelmslev afirma que “a linguagem é inseparável do homem, segue-o em todos os seus atos”, sendo
“o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da sociedade humana.”
Prosseguindo em sua apreciação sobre a importância da linguagem, Rosseau considera que a linguagem nasce de uma profunda necessidade de comunicação:
“Desde que  o homem foi reconhecido por outro como um ser sensível, pensante e semelhante a si próprio, o desejo e a necessidade de comunicar-lhes seus sentimentos e pensamentos fizeram-no buscar meios para isto.”
Gestos e vozes, na busca da expressão e da comunicação, fizeram surgir a linguagem.
Por seu turno, Hjelmslev afirma que a linguagem é
“o recurso último e indispensável do homem, seu refúgio nas horas solitárias em que o espírito luta contra a existência, e quando o conflito se resolve no monólogo do poeta e na meditação do pensador.”
A linguagem, diz ele, está sempre à nossa volta, sempre pronta a envolver nossos pensamentos e sentimentos, acompanhando-nos em toda nossa vida. Ela não é um simples acompanhamento do pensamento, “mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento”, é “o tesouro da memória e a consciência vigilante transmitida de geração a geração.”

A linguagem é, assim, a forma propriamente humana da comunicação , da relação com o mundo e com os outros, da vida social e política, do pensamento e das artes.

No entanto, no diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é um pharmakon. Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno ou cosmético. (neste link, um site maravilhoso sobre Platão com os diálogos comentados, muito interessante - pra quem gosta da filosofia, é claro!)

Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois pelo diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. A linguagem pode ser conhecimento-comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução.


"The Tower of Babel", Brueghel, 1563 - Oil on panel, Kunsthistoriches Museum, Vienna.

Essa mesma ideia da linguagem como possibilidade  de comunicação-conhecimento e de dissimulação-desconhecimento aparece na Bíblia judaico-cristã, no mito da Torre de Babel, quando Deus lançou a confusão entre os homens, fazendo com que perdessem a língua comum e passassem a falar línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo as portas para todos os desentendimentos e guerras. A pluralidade das línguas é explicada, na Escritura Sagrada, como punição porque os homens ousaram imaginar que poderiam construir uma torre que alcançasse o céu, isto é, ousaram imaginar que teriam um poder e um lugar semelhante ao da divindade. “Que sejam confundidos”, disse Deus.

A origem da linguagem


Durante muito tempo a filosofia preocupou-se em definir a origem e as causas da linguagem.
Vaso Grego, Séc IV a.C.
 Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural aos homens (é inata, existe por natureza?) ou é uma convenção social (aprendida?)? Se a linguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e necessário; se for convencional, são decisões consensuais da sociedade e, nesse caso, são arbitrárias, isto é, a sociedade poderia ter escolhido outras palavras para designar as coisas.

Essa discussão levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: a linguagem, como capacidade de expressão dos seres humanos, é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica, nervosa e cerebral que lhes permite expressarem-se pela palavra; mas as línguas são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográfica, econômicas e políticas determinadas, ou , em outros termos, são fatos culturais. Uma vez constituída uma língua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidades internas (sintaxe), passando a funcionar como se fosse algo natural, isto é, como algo que possui suas leis e princípios próprios, independentes dos sujeitos falantes que a empregam.


Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de respostas:

  1.  A linguagem nasce por imitação, isto é, os humanos imitam, pela voz, os sons da Natureza. A origem da língua seria, portanto, a onomatopeia ou imitação dos sons animais e naturais.
  2.  A linguagem nasce por imitação dos gestos, isto é , nasce como uma espécie de pantomima ou encenação, na qual o gesto indica um sentido. Pouco a pouco, o gesto passou a ser acompanhado de sons e estes se tornaram gradualmente palavras, substituindo os gestos.
  3. A linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a necessidade de abrigar-se e proteger-se, a necessidade de reunir-se em grupo para defender-se das intempéries, dos animais e de outros homens mais fortes levaram à criação de palavras, formando um vocabulário elementar e rudimentar, que, gradativamente, tornou-se mais complexo e transformou-se numa língua;
  4. A língua nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa ou alegria), do choro (dor, medo, compaixão) e do riso (prazer, bem-estar, felicidade).

     Citando novamente Rousseau em seu “Ensaio sobre a origem das línguas”:

“Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes... Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas.”

Assim, a linguagem, nascendo das paixões, foi primeiro linguagem figurada e por isso surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as vogais nasceram antes das consoantes. Assim como a pintura nasceu antes da escrita, assim também os homens primeiro cantaram seus sentimentos e só muito depois exprimiram seus pensamentos.


Essas teorias não são excludentes. É muito possível que a linguagem tenha nascido de todas essas fontes ou modos de expressão, e os estudos de Psicologia Genética (isto é, da gênese da percepção, imaginação, memória, linguagem e inteligência nas crianças) mostram que uma criança se vale de todos esses meios para começar a exprimir-se. Uma linguagem se constitui quando passa dos meios de expressão aos de significação, ou quando passa do expressivo ao significativo.

Mas isso já é assunto para outro post, que esse já está bem grandinho!

Para terminar, já que a autora afirma que os homens primeiro cantaram seus sentimentos, uma musiquinha do velho Mano Caetano que expressa muito bem sentimentos, pensamentos e emoções acerca da nossa língua pátria, “a última flor do Lácio”, sempre citada nas nossas aulas, sejam de Linguagem ou Filosofia!!!


 


Referência Bibliográfica: CHAUÍ, Marilena. "Convite à Filosofia". Rio de Janeiro. Editora Ática. 1997.